Como investir no setor energético da Venezuela, o país onde está 20% da reserva mundial de petróleo? O manual ganhou um novo passo-chave desde janeiro passado: obter o “ok” do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que tecnicamente exerce tutela sobre o regime de Delcy Rodríguez.
A exigência desafia empresas brasileiras que querem entrar no setor em meio à reabertura econômica. Empresários e consultores que falaram à reportagem sob reserva dizem que uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) poderia destravar e facilitar esse caminho.
Até o momento ao menos três empresas brasileiras entraram no setor de óleo e gás venezuelano: a holding Alvorada; a Globe, parte do conglomerado dos irmãos Wesley e Joesley Batista; e a Eneva, maior operadora privada de gás natural do Brasil. Há, ainda, as que buscam formas de entrar.
Para empresários ouvidos sob reserva, a chegada de Flávio ao Planalto aceleraria as autorizações da equipe de Marco Rubio, chefe da diplomacia americana, para que brasileiros entrem no setor petroleiro. Isso devido à proximidade do senador —e de toda a família Bolsonaro— com Donald Trump.
A avaliação uníssona entre os ouvidos é a de que a diplomacia brasileira hoje, sob o governo Lula, tem pouco poder de barganha para introduzir o empresariado brasileiro em Caracas.
RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS
Ainda que próximos, o governo de Lula (PT) e o regime chavista se distanciaram quando o petista não reconheceu a vitória de Nicolás Maduro nas eleições de 2024 e pediu a apresentação de provas. Além disso, o governo petista não é próximo da gestão Trump, que é, na prática, quem aprova ou desaprova projetos em curso em Caracas.
Desde a captura de Maduro em janeiro, a Venezuela tem reaberto a economia e modificado suas leis do setor. O arrefecimento de sanções americanas e europeias facilitou a tarefa.
A americana Chevron, a espanhola Repsol e a italiana Eni ainda dominam a exploração de óleo e gás na Venezuela entre petroleiras estrangeiras, mas cada vez mais outras empresas têm obtido uma fatia.
Os EUA já anunciaram um acordo para receber por cem anos a concessão de exploração de 17 campos em parceria com o empresário local Alejandro Betancourt, investigado internacionalmente por suposto envolvimento em casos de corrupção.
A exploração é majoritariamente onshore —em terra firme— por dois motivos: o retorno financeiro é mais rápido, e a maioria do produto venezuelano está em terra.
Muitas das empresas que planejam entrar encontram como melhor estratégia firmar parcerias com uma contraparte americana, para tentar suavizar o crivo da Casa Branca —o chamado “ok do Rubio”.
Além das empresas que pretendem entrar no setor por enxergarem segurança jurídica nos novos acordos com a estatal PDVSA, há também uma ampla revisão em andamento dos contratos de participação produtiva (os CPPs) firmados nos últimos dois anos.
Por meio deles, a empresa internacional recebe campos de exploração e, em contrapartida, tem de pagar royalties ao Estado.
A reavaliação generalizada, dizem pessoas envolvidas, visa a expulsar da lista de contratos indivíduos que tenham relação com o regime pré-invasão americana, agentes de países como Cuba e Irã, além de qualquer nome que cause ojeriza aos americanos. Ou seja, é preciso ser amigo de Washington.
A gestão desse novo cenário do petróleo tem sido liderada pela equipe do encarregado de negócios dos EUA em Caracas, John Barrett —os americanos estão literalmente trabalhando dentro do edifício da PDVSA—, e pela ministra de petróleo venezuelana, Paula Henao.
A produção de petróleo no país hoje está em torno de 1,2 milhão de barris por dia. Nas décadas de 1960 e 1970, essa marca superava 3 milhões. Depois, durante o governo de Hugo Chávez e até o agravamento da crise econômica local em 2017, estava acima de 2 milhões.
O QUE DIZEM AS BRASILEIRAS QUE JÁ ESTÃO NO SETOR
As três empresas brasileiras que já estão no ecossistema petrolífero venezuelano entraram nos últimos anos.
A holding Alvorada, fundada em 2021, está no país desde 2023, explorando três campos de petróleo na região do Orinoco, onde estão as maiores reservas do país. A empresa anunciou em abril a expansão de suas operações.
A Globe, dos irmãos Batista, adquiriu neste ano a participação em quase metade da Petrororaima, uma joint venture com a estatal PDVSA, por meio de sua subsidiária Fluxos. A empresa também explora no Orinoco.
Por último, a Eneva, a maior operadora privada de gás natural do Brasil que tem o BTG Pactual como principal acionista individual, assinou um memorando.
FONTE:
folha.com ↗
