Um dia após o presidente Donald Trump suspender um pacote de sanções duras contra a Rússia devido à Guerra da Ucrânia, Moscou anunciou um grande avanço no leste do país invadido por Vladimir Putin em fevereiro de 2022.

Segundo o Ministério da Defesa da Rússia, foram tomadas oito localidades neste sábado (17), incluindo a estratégica cidadezinha de Dobropillia, que já havia sido objeto de uma batalha de quatro meses no ano passado.

O governo ucraniano admitiu avanços, mas negou ter perdido controle da localidade, dizendo que os combates continuam. Segundo monitores militares dos dois lados do conflito, tudo indica que a situação da região de Donetsk (leste) se agravou para Kiev.

O avanço foi no eixo sul do movimento em pinça de forças russas rumo às duas últimas cidades do “cinturão das fortalezas” da região, a capital provisória Kramatorsk e Sloviansk.

Na sexta (16), Putin havia dito que só faltaria conquistar 10% do território, seu principal objetivo na guerra e 1 das 4 regiões anexadas ilegalmente por ele em 2022. Ele controla toda Lugansk (leste), e mais de 80% de Zaporíjia e Kherson (sul).

Além disso, o russo afirmou que já tem 70% de uma faixa de fronteira que não pretende devolver a Kiev em eventuais negociações.

O anúncio deste sábado, mesmo que não confirmado completamente e descontando a propaganda de Moscou, coroa duas semanas de notícias sombrias para o governo de Volodimir Zelenski e o futuro da defesa ucraniana, com uma participação central de Trump.

O americano havia firmado um acordo para comprar diesel russo visando a reduzir os preços domésticos nos EUA devido ao impacto dessa inflação, de resto provocada principalmente pela guerra de Trump contra o Irã, nas chances de o Partido Republicano manter o controle do Congresso nas eleições de novembro.

Na sexta, Zelenski concordou quando foi questionado por um repórter se ele se sentia como um bode expiatório de Trump. Agravando a situação, houve episódios de falta da única ajuda que ainda chega diretamente dos EUA a Kiev: inteligência militar.

Informes em tempo real de lançamentos de mísseis balísticos russos deixaram de ser enviados a Kiev, e a versão militar da rede de satélites Starlink, gerida pelas forças de Trump, passou a funcionar com limitações.

O problema com os satélites, após queixas públicas de Zelenski, parece estar sendo resolvido, mas neste sábado o presidente ampliou o alerta: além de afetar operações ofensivas na linha de frente, em meio ao avanço russo, há falhas também que impedem o uso preciso de mísseis de interceptação antiaérea.

Com efeito, os monitores ucranianos de aeronaves e bases russas indicam o preparo para um forte ataque, que pode acontecer já na noite deste sábado.

O objetivo de Trump era o de pressionar Zelenski a manter um cessar-fogo contra refinarias russas, uma campanha bem-sucedida que gerou racionamento de combustível no vizinho e afetou a popularidade de Putin.

O Kremlin sustenta que, mesmo com a capacidade de produção de derivados limitada, pode fornecer o diesel que os EUA querem. Seja como for, após três dias, o ucraniano desistiu da trégua, até porque Moscou seguiu atacando seu sistema energético. Trump chamou a decisão de “uma vergonha”.

A tudo isso se soma a decisão do americano na noite de sexta de suspender o efeito da lei batizada em homenagem ao recém-falecido senador Lindsey Graham, aprovada no mês passado, que previa um pacote duro de sanções à Rússia.

A decisão foi justificada pela necessidade de compra do diesel, dado que a lei previa diversas punições a pessoas, instituições financeiras e a frota de petroleiros fantasma, que operam com bandeiras de outros países, a serviço do setor de petróleo russo.

A lei previa a imposição de tarifas a países compradores do produto, ou seja, os próprios EUA agora. Além disso, determinava 100% de sobretaxas de importação às nações que mais compram gás russo, como China e Índia.

Tanto Pequim quanto Nova Déli protestaram, afirmando que isso seria um empecilho às negociações comerciais ora em curso. No mês passado, o líder chinês Xi Jinping esteve em Washington, onde foi recebido com pompa pelo americano.

O Kremlin, como seria previsível, celebrou a decisão de Trump. Para o negociador Kirill Dmitriev, ela é histórica. Se mantida após as eleições, a suspensão poderá dar mais alívio financeiro a Putin num momento de grande dificuldade para a Ucrânia.

Zelenski recorreu aos aliados europeus da Otan em um encontro na sexta, mas o fato é que eles têm capacidade limitada de apoio: as armas de interceptação precisam ser compradas dos EUA, e não há serviço de inteligência militar tão capaz quanto o dos EUA a ser oferecido.

Com tudo isso, a guerra mais sangrenta em solo europeu desde 1945 entra em um capítulo novo e desfavorável aos ucranianos.


FONTE:
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