Cobre, grafita, lítio, níquel e terras raras são usados em baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas militares. O governo Trump os trata como questão de segurança econômica e nacional. Em janeiro, determinou negociações com parceiros para garantir o fornecimento. Em julho, restringiu a aquisição de materiais para a indústria de defesa aos Estados Unidos e países aliados.

O Brasil tem a maior reserva mundial de nióbio, a segunda maior de grafita e terras raras e a terceira maior de níquel. Mas processa pouco do que extrai. Segundo estudo da Amcham, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil, apenas 5% do lítio extraído no país em 2023 foi processado internamente. No níquel, a parcela refinada ficou abaixo de 40%.

Em meio à deterioração das relações entre Brasil e EUA, o estudo publicado no dia 30 de julho fala sobre a expansão dos investimentos em minerais críticos e terras raras por aqui.

O trabalho compara dois cenários até 2050. No primeiro, capital doméstico financia uma produção voltada principalmente à exportação. No segundo, o estudo combina maior integração dos minerais às cadeias industriais brasileiras com maior participação do capital estrangeiro no setor, que subiria de cerca de 4% para 15%.

No primeiro cenário, o impacto acumulado sobre o PIB seria de 1,1%, ou R$ 128,7 bilhões, com 304 mil postos de trabalho. No segundo, chegaria a 1,64%, R$ 192,1 bilhões, e 750 mil ocupações. A diferença entre os dois cenários corresponderia a R$ 63,4 bilhões e 446 mil ocupações.

O estudo oferece bons argumentos para ampliar a transformação dos minerais no Brasil. Mas o cenário de maior crescimento combina duas escolhas: adensar a cadeia produtiva no país e internacionalizar parte de seu financiamento. A comparação apresentada não permite separar quanto do resultado decorre de cada uma.

O estudo não trata especificamente de investimentos norte-americanos, mas foi realizado pela Amcham. A pergunta que não encontrei nele e me parece bastante relevante é qual seria o resultado se o Brasil ampliasse o processamento doméstico sem aumentar a participação do capital estrangeiro.

A escolha sobre como financiar essa industrialização é também uma questão de autonomia. O interesse brasileiro em agregar valor aos minerais não precisa se confundir com qualquer possível interesse em ampliar a participação do capital estrangeiro. Sem falar, por ora, que os efeitos sobre o meio-ambiente, povos indígenas e quilombolas que vivem em territórios potencialmente afetados também precisam entrar na conta.

O contexto geopolítico reforça a importância da pergunta. Editorial desta Folha publicado no sábado (15) chamou atenção para a política do governo Trump para a América Latina e sua relação com a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A atual crise com o Brasil inclui tarifas, divergências diplomáticas e, mais recentemente, a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington.

Os objetivos norte-americanos estão explicitados. Cabe ao Brasil definir bem os seus.

(Este texto será publicado em duas partes. A continuação sai na próxima semana.)

Fonte: Folha.com /a>