Os combates entre as forças armadas da Etiópia e as autoridades da região de Tigré, no norte do país, intensificaram-se drasticamente nos últimos dias, sinalizando o que pode ser o início de uma nova guerra no segundo país mais populoso da África.

Os dois lados travaram, a partir de 2020, um conflito de dois anos que deixou centenas de milhares de mortos, em meio a relatos de atrocidades generalizadas e violência sexual em massa.

As novas hostilidades provocaram alarme internacional, diante do temor de que os combates se transformem em um conflito regional e arrastem os países vizinhos do Chifre da África e do Golfo Pérsico.

Quem está lutando?

O conflito é protagonizado pela Força de Defesa Nacional da Etiópia —o exército do governo federal sediado na capital, Adis Abeba— e a Frente de Libertação do Povo do Tigré (FLPT), no norte.

No mês passado, a FLPT uniu-se a seis grupos armados opositores para formar uma nova coalizão, a Aliança pela Sobrevivência. O objetivo é derrubar o primeiro-ministro do país, Abiy Ahmed, no poder desde 2018, e reformar a Constituição.

Dois integrantes da aliança rebelde, provenientes das regiões nortistas de Afar e Amhara, também se juntaram ao combate. O governo aliou-se a uma facção dissidente de combatentes do Tigré que recentemente rompeu com a FLPT.

O que aconteceu até agora?

Os confrontos recentes foram precedidos por meses de ataques de drones em Tigré, embates em partes do norte da Etiópia e uma retórica política agressiva.

No primeiro semestre, a FLPT retomou o controle político de Tigré e anunciou que Debretsion Gebremichael, que liderou a região durante a guerra anterior, assumiria a presidência regional.

Os combates se intensificaram no fim de setembro, quando a FLPT tomou aeroportos sob controle federal na capital de Tigré, Mekelle, assim como nas cidades de Axum e Shire. Os rebeldes afirmaram que o grupo estava “iniciando operações defensivas” em resposta a uma invasão, com ataques de drones e artilharia de Adis Abeba.

O exército e as milícias aliadas avançaram recentemente em direção a Mekelle. As milícias da Aliança pela Sobrevivência avançaram para o sul, em Amhara, e para o leste, em Afar.

Segundo especialistas, um dos objetivos da aliança é interromper a rodovia que liga a Etiópia a Djibuti. O país não tem saída para o mar, o que torna o porto de Djibuti uma rota vital para o comércio e o transporte de armas.

Que outros países estão envolvidos?

Vários países têm interesses econômicos e de segurança na região, mas nenhum mais do que a Eritreia. O país travou uma guerra contra Adis Abeba entre 1998 e 2000, e as relações entre ambos permaneceram hostis por muitos anos.

Em 2020, após uma reaproximação que rendeu a Abiy o Prêmio Nobel da Paz, a Eritreia combateu ao lado do governo federal na guerra contra Tigré. Grupos de direitos humanos acusaram o país de cometer atrocidades no conflito.

A Eritreia aproximou-se recentemente dos líderes da região etíope, em parte porque Tigré funciona como um porto seguro contra a ambição declarada da Etiópia de garantir acesso ao Mar Vermelho —perdido quando a Eritreia se tornou independente, na década de 1990. O porto eritreu de Assab fica a apenas 65 km da fronteira do norte etíope.

Com o aumento das tensões, os dois países anunciaram na quinta-feira (1º) que fechariam suas respectivas embaixadas e expulsariam seus diplomatas. O Ministério das Relações Exteriores da Etiópia acusou a Eritreia de “atos de hostilidade”, enquanto a Eritreia afirmou que Adis Abeba praticava uma “hostilidade incessante” em sua busca por um porto.

Ainda não está claro se as forças eritreias se envolverão diretamente nos combates, disseram analistas.

Entre os aliados da Eritreia está o Egito, que criticou publicamente a Etiópia pela construção de uma enorme represa no rio Nilo. Outros aliados eritreus incluem as Forças Armadas Sudanesas e a Arábia Saudita.

A Etiópia mantém laços estreitos com os Emirados Árabes Unidos, um dos principais investidores no país. Os emiratis são amplamente acusados de apoiar as Forças de Apoio Rápido, um grupo paramilitar que combate o exército sudanês em uma “guerra esquecida” que dura três anos e já matou dezenas de milhares.

Analistas alertam que um novo conflito na Etiópia pode, na prática, fundir-se à guerra civil no Sudão ao longo da fronteira, com interesses de potências estrangeiras disputando influência por meio de forças aliadas.

Qual tem sido a reação internacional?

Vários líderes mundiais, incluindo o papa, pediram mediação, e seis senadores democratas solicitaram ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que intervenha.

O ex-presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, um dos mais relevantes diplomatas africanos, lidera uma iniciativa de mediação em nome da União Africana. Mas os líderes do Tigré criticam a organização, cuja sede fica em Adis Abeba, sob acusações de que ela favorece o governo federal.

Como resultado, segundo analistas, não há um mediador de destaque que conte com a confiança de todos os lados.


FONTE:
folha.com ↗