Zohran Mamdani, o prefeito de Nova York, é um grande nadador, no sentido que foi uma vez descrito por Lula ao distinguir entre os dois tipos de personagens mais comuns —e, ao mesmo tempo, mais opostos— à esquerda, numa arenga que para mim ficou memorável.

Dizia então Lula, falando no ano de 2017 sobre o PSOL: “A única coisa que eu desejo é que eles ganhem alguma coisa! Eu quero que eles governem a cidade do Rio de Janeiro! Quando eles governarem a cidade do Rio de Janeiro, metade da frescura vai acabar. Eles vão perceber que não dá para a gente nadar teoricamente: não dá para ficar na beira da praia falando para estender uma braçada para cá, uma braçada para lá, levanta a cabeça, bate um pé… ah, entra na água e vai nadar, porra!”.

Em tempos, a grande distinção na esquerda era entre reformistas e revolucionários. Hoje, acho que mais vale aplicar o critério de Lula: quem entra na água para nadar e quem pretende ensinar os outros a nadar teoricamente.

Há quem já tenha nascido sabendo nadar: é o caso de Mamdani, que não precisou começar a governar uma enorme cidade, a mais icônica delas todas, para deixar de frescura. E há aqueles que se recusam a entrar na água e pretendem ensinar os outros a nadar teoricamente: é o caso de quem decidiu usar o seu tempo para insultar Mamdani acusando-o de cumplicidade com o governo de Israel e com o genocídio em Gaza contra os palestinos.

Numa vigília de memória pelas vítimas do 7 de Outubro, em Union Square, junto de uma organização de judeus pela paz e pró-palestinos, Mamdani teve de ficar impávido e sereno enquanto ouvia um grupo de manifestantes, alguns dos quais da sua própria organização política, gritar-lhe que tinha as mãos manchadas de sangue, que estava do lado do genocídio e que não passava de um traidor.

Esse confronto ilustra na perfeição a abordagem diametralmente oposta das duas personagens-tipo principais da esquerda: o político e o ativista.

O político pode ser mais moderado ou radical, reformista ou revolucionário, centrista ou esquerdista, mas se é político mesmo, sabe de uma coisa: a sua missão é convencer gente a criar maiorias para fazer a mudança. O calibre do seu sucesso está na sua capacidade de falar a um máximo de gente.

Já o ativista precisa funcionar numa lógica de diferenciação: a grande maneira que tem de chamar a atenção é dizer aquilo que praticamente mais ninguém diz; se e quando muita gente disser o mesmo, o ativista sobe o sarrafo para outra posição ainda mais minoritária. Para ele, o sinal do sucesso é nunca deixar de ser uma minoria.

Não quero com isto dizer que a posição do ativista seja sempre má ou a do político sempre boa. Muitas vezes elas trabalham bem em conjunto. Outras vezes (como agora no Brasil) elas veem-se forçadas a lutar pela sobrevivência para evitar uma derrota política.

Esse não é o problema. O problema começa se houver uma vitória. Havendo uma vitória, é preciso —bem ou mal— nadar na prática. Governar para toda a gente. E que haja na esquerda um segmento que prefere a derrota purista à vitória pragmática tem sido uma das grandes razões da nossa debilidade atual.


FONTE:
folha.com ↗