Ele disse que “Deus é não binário”, teve como plano de vida ser pastor, defendeu pautas progressistas e agora quer vencer uma eleição no Texas. Com um perfil inusual para tal missão, James Talarico, 37, é apontado pelas pesquisas como favorito na disputa pelo Senado no segundo estado mais populoso dos Estados Unidos, em 3 de novembro.

Tenta o que um democrata não consegue há quase quatro décadas —a última vitória foi em 1988. Para vencer, mistura pautas identitárias com a Bíblia, discursos humanitários com memes no TikTok e mostra disposição para ocupar o espaço de oposição a Donald Trump, vitorioso nas últimas três eleições no Texas.

Antes disso, há oito anos, Talarico tinha uma dúvida: seguiria os estudos para virar pastor ou tentaria entrar na carreira política? Foi consultar quem ele diz ser a sua principal referência para tomar decisões.

“Ele veio conversar comigo sobre como fazer isso [entrar na política] e ainda ser uma pessoa guiada pelo amor”, conta à Folha o pastor Jim Rigby, da Igreja Presbiteriana Saint Andrews, no norte de Austin, capital do Texas.

O templo que ocupa uma larga quadra é uma construção de um andar com espaço para cultos, salões usados em ações sociais, uma pequena cozinha e uma sala de aula, onde funciona uma creche. Foi lá que Rigby batizou Talarico, celebrou o casamento de seus pais e viu o aluno dedicado se interessar pela religião.

Talarico se formou em ciências políticas na Universidade do Texas, fez mestrado em educação em Harvard e em teologia no Seminário Presbiteriano de Austin. Antes de ser deputado, deu aula para crianças.

O pastor Rigby diz que o pupilo levou a sério a política como uma expressão de compaixão. “Ser político é diferente de ser um pregador. O pastor tem de dizer o que acredita ser a verdade, mas não tem poder político. Se ele obtém poder político e força suas crenças na lei, isso é fascismo”, diz.

“Eu defendo abertamente os direitos reprodutivos das mulheres e considero que a visão binária de sexo é obsoleta e sem base científica”, completa o pastor, que se define como socialista democrata.

As declarações, as ideias e as crenças do mentor foram usadas por adversários de Talarico para atacá-lo. Nenhuma, porém, teve tanto impacto quanto uma fala do próprio candidato quando era deputado estadual no Texas.

“Deus é não binário”, afirmou Talarico na Câmara local, em 2021. Alvo de cristãos conservadores, citou o livro de Gênesis e a carta de Paulo aos Gálatas (“Em Cristo não há macho nem fêmea”) e disse que sua intenção era mostrar que Deus está além do gênero.

“Se alguém tem um problema com isso, não deveria resolver comigo, deveria resolver com o Apóstolo Paulo”, argumentou.

Cinco anos depois, a frase voltou ao debate, após o democrata vencer as prévias do partido, em março deste ano. Sem recuar, disse em entrevista ao New York Times que falaria as mesmas coisas de maneira diferente.

Os princípios que ele estava defendendo, “de que o racismo é imoral e errado e de que pessoas trans merecem dignidade e igualdade”, continuam os mesmos, afirmou. “Eles decorrem diretamente da minha fé. Mas eu provavelmente os teria dito de outra forma.”

Talarico aparece à frente nas pesquisas de intenção de voto, com 51%, na disputa por uma vaga no Senado. Seu adversário, o republicano Ken Paxton, está com 45%, segundo o New York Times/Siena.

Fatores alheios à popularidade do democrata pesam a seu favor. Um deles é a avaliação negativa do governo Trump no Texas. Outra é a biografia do adversário.

Trumpista, Paxton é um ex-deputado e procurador-geral do Texas desde 2015. Teve impeachment do cargo aprovado na Câmara local por acusações de suborno e obstrução de Justiça. O Senado estadual, porém, o livrou. No processo foi apresentado um testemunho sobre um caso extraconjugal.

A esposa do político, a senadora estadual Angela Paxton, pediu o divórcio por “motivos bíblicos”, mencionando o adultério do marido. O caso teve impacto nos eleitores conservadores cristãos, tradicionalmente apoiadores do Partido Republicano.

A novidade de Talarico é justamente usar a religião alinhada a um discurso que não é conservador. Entre muitas declarações que já viralizaram, disse que o atual presidente dos EUA é o anti-Jesus. “Acho que, se Trump e J.D. Vance conhecessem Jesus hoje, eles zombariam dele como um hippie solteiro e sem filhos”, afirmou.

O formato e os meios utilizados pelo cristão presbiteriano o diferenciam de outros democratas que tentam enfrentar o trumpismo. Em julho do ano passado, por exemplo, ele foi ao podcast Joe Rogan, um fenômeno de audiência e muito popular entre homens de direita.

Em 2024, Rogan entrevistou Trump por mais de três horas. Um dia antes da eleição, o apresentador anunciou apoio ao atual presidente na disputa. A não ida da candidata democrata ao podcast virou uma questão na campanha de Kamala Harris, que admitiu arrependimento um ano depois.

Talarico conversou por mais de duas horas com Rogan, que recomendou que o democrata fosse candidato à Presidência dos EUA. “Precisamos de alguém que seja realmente uma boa pessoa”, afirmou.

Fonte: Folha.com